Arquivo para novembro \20\UTC 2011

20
nov
11

Eclipses e Colapsos em Eta Carinae – Palestra no ENAST

O 14º ENAST, realizado em São Paulo, foi encerrado com a palestra do professor Augusto Daminelli “Eclipse e Colapsos em Eta Carinae”. O tema da palestra foi explicado nesse artigo da Folha de São Paulo de forma clara e objetiva em 2009 e o mais recente paper, há pouco publicado, sobre Eta Carinae pelo professor Daminelli e sua equipe pode ser lido aqui.

A seguir o texto da Folha de São Paulo, cujo link pode ser acessado aqui

 

EDUARDO GERAQUE
enviado especial da Folha de S.Paulo a La Serena (Chile)

Às 3h35 da manhã (4h35 de Brasília) de segunda-feira em La Serena, no Chile, o astrônomo Augusto Damineli, 61, sentava-se na cadeira que permite controlar o telescópio Soar (Observatório do Sul para Pesquisa Astrofísica). Ansioso, testemunhou um fenômeno que poucos tiveram oportunidade de ver, ocorrido em Eta Carinae, uma estrela que ele estuda há 20 anos. Ontem, bem no dia em que Damineli havia previsto, a estrela sofreu um apagão.

O prédio de controle do Soar, na verdade, fica a 80 km do equipamento, que está no topo de Cerro Pachón, a 2.701 metros de altitude. “Astrônomo não pode pôr muito a mão no telescópio”, brinca o cientista brasileiro. Em La Serena, 475 km ao norte de Santiago, na beira do Pacífico, o observatório fica próximo de centros produtores de vinho e pescado. E, ontem, não faltou motivo para abrir uma garrafa.

Reuters
Imagem mostra sistema da Eta Carinae; conforme previsto por pesquisador brasileiro, estrela sofreu um apagão nesta segunda-feira
Imagem mostra sistema da Eta Carinae; conforme previsto por pesquisador brasileiro, estrela sofreu um apagão nesta segunda

Controle remoto

“Patrício! A Eta Carinae.” O pedido que parte de La Serena vai em direção ao astrônomo chileno Patrício Ugarte, que está no morro. Ele, sim, é quem pode pôr as mãos no telescópio. Segundos depois, é possível ver e ouvir a resposta (via teleconferência): “Pronto!”.

O espelho de 4,2 metros do Soar, a partir das coordenadas dadas por Ugarte, já está olhando para Eta Carinae. Damineli, com auxílio do também brasileiro Luciano Fraga, que há um ano e sete meses trocou Florianópolis pelo norte do Chile, faz as primeiras medições, via computador.

Basta um único gráfico, que mostra a presença dos elementos químicos ferro e nitrogênio –medidos nos gases que circundam Eta Carinae– para comprovar a previsão. “Chegou lá”, comunica Damineli. A “assinatura” do apagão é uma diminuição na luminosidade de nitrogênio e hélio detectados pelo telescópio, que enxerga frequências de luz invisíveis ao olho humano. O apagão não é visível a olho nu, mas no Soar o sinal é mais do que claro.

Cinco anos e meio

O fenômeno, como havia sido previsto pelo próprio pesquisador brasileiro, voltou a ocorrer depois de 5,5 anos, dentro da margem de erro, que era de dois dias para mais ou para menos. “Isso que é precisão”, Damineli diz à estrela que observa. “Se eu tiver uma neta, vou colocar o nome de Carina.”

Damineli explica que Eta Carinae, na verdade, não é uma estrela única, e sim um sistema com duas. Ontem, no céu, perto do Cruzeiro do Sul, a estrela Eta Carinae B estava no momento mais profundo de seu mergulho no campo de influência da estrela A, que possui 2,5 milhões de anos.

Os gases e o plasma dessa estrela pertencente à classe das hipergigantes azuis são tão coesos que é possível dizer que uma estrela “entra” na outra. O que ocorre é uma colisão violenta de seus “ventos” –as partículas carregadas que as estrelas lançam a grandes velocidades no espaço.

“Na área de choque dos ventos das duas estrelas, a temperatura é de 100 milhões de graus Celsius”, explica Damineli. O vento da menor delas, de 3.000 km/s, bate no vento da maior, que trafega a 600 km/s. E esse “atrito” induz o apagão.

Eduardo Geraque/Folha Imagem
Astrônomo Augusto Damineli, em sala de controle do Soar; ele já estava em La Serena se preparando para o evento havia um mês
Astrônomo Augusto Damineli, em sala de controle do Soar; ele já estava em La Serena se preparando para o evento havia um mês

O registro do fenômeno ontem em La Serena –cidade onde nunca chove, mas fica nublada nas manhãs de verão– é como “marcar um gol”, diz Damineli. Ele já estava lá se preparando para o evento havia um mês. Na semana entre Natal e Ano Novo, subiu até o telescópio acompanhado apenas de um colega para fazer pessoalmente algumas observações.

Ciência nas alturas

“Lá em cima é muito bom”, diz Damineli, revelando também o seu gosto pela astronomia romântica. Hoje, devido à tecnologia, boa parte dos equipamentos podem ser operados remotamente, de qualquer parte do mundo. “Não poderia perder a oportunidade de observar esse apagão.” Sua presença lá era considerada importante, já que boa parte da biografia “quase acabada” de Eta Carinae saiu de estudos feitos por seu grupo, na USP (Universidade de São Paulo).

A primeira observação que Damineli fez de Eta Carinae foi em 1989, no Brasil, onde não há nenhum telescópio –nem tempo bom– como o Soar. Depois disso, Damineli assistiu a três apagões, com o de ontem.

Ele quem primeiro defendeu o modelo de que Eta Carinae era um sistema duplo, e não uma única estrela. Além da previsão do ciclo exato de 5,5 anos para ocorrer o apagão. Sua teoria ainda não é unanimidade na comunidade de astrônomos, mas a observação de ontem deve lhe dar força.

O apagão não é como um eclipse nem pode ser visto dentro da faixa de luz do visível. São apenas os canais de alta energia da estrela maior que somem. A presença do astro menor muito próximo do maior (a distância que normalmente é de 4,5 bilhões de quilômetros cai para 150 milhões de quilômetros) ofusca a energia que emana da Eta Carinae A. Damineli constatou isso por meio de sinais dentro da faixa do ultravioleta.

Matéria da vida

Eta Carinae, exótica por si só, chama a atenção dos cientistas há tempos. São publicados em todo mundo dois estudos por mês sobre a estrela. Mas há razões científicas importantes para estudar esse verdadeiro fóssil estelar –corpos celestes como esse existiam aos milhões nos primeiros 2 bilhões de anos do Universo, que hoje tem 13,7 bilhões de anos de idade.

“Estrelas como a Eta Carinae são especialistas em produzir e liberar oxigênio. Essas estrelas são responsáveis pelo preenchimento de várias casas [elementos] da nossa tabela periódica”, afirma Damineli. Estudar o coração da Eta Carinae e entender por completo como ele se expressa é conhecer mais sobre as condições químicas para o surgimento da vida. Ajudaria a entender por que a água, no Sistema Solar, é algo tão abundante. Para Damineli, “rastros de atividade biológica precisam ser procurados fora do Sistema Solar”.

Mesmo com o êxito de ontem, Damineli revela: “esse provavelmente foi meu último apagão. Agora, o resto será com os meus alunos”. Sua próxima missão é bem mais ousada: “Temos dados suficientes para mostrar que o modelo atual da Via Láctea está errado”, afirma.

De um jeito ou de outro, mesmo que Damineli não volte ao Soar para observar Eta Carinae, o próximo apagão já tem data: o inverno de 2014.

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04
nov
11

11339: Mancha Solar gigantesca!

Lá vem chumbo grosso! Essa magnífica estrutura está visível há alguns dias e ainda ficará por quase uma semana. No decorrer desse período pode dar trabalho aqui na Terra. Ou não..

Vejam que espetáculo nas imagens de dois astrofotógrafos:  David Evans ,  Theo Ramakers e do SDO/NASA. 

Foto de 1339 (em destaque) e 1338 de Theo Ramakers, especialista em Sol. Foto tirada nos Estados Unidos.

Foto tirada nos Estados Unidos.

Foto do incrível astrofotógrafo David Evans, especialista em Sol. Foto tirada na Inglaterra.

Que foto espetacular! Tirada na Inglaterra

Que foto espetacular! Tirada na Inglaterra.

Imagem do SDO

Agora, veja este vídeo e impressione-se com essa mancha espetacular.

04
nov
11

Hubble faz observação direta de um disco de acreção em quasar

Um disco de acreção num quasar! É incrível o que o efeito das lentes gravitacionais tem ajudado os astrônomos a observar objetos mais distantes.

Este artigo foi publicado no site do spacetelescope a partir do site do Hubble e o original pode ser lido aqui.

O texto foi adaptado.

Quasar HE 1104-1805 ampliado pelo efeito das lentes gravitacionais \credit: Hubble

Uma equipe de cientistas tem usou o Hubble Space Telescope para observar um disco de acreção em um quasar — um disco brilhante de matéria que está lentamente sendo sugado para dentro do centro do buraco negro da galáxia. O estudo  faz uso de uma nova técnica que utiliza lentes gravitacionais para dar um imenso impulso ao poder do telescópio. A incrível precisão do método permitiu  aos astrônomos medir diretamente o tamanho do disco e plotar a temperatura em diferentes partes do disco.

A equipe mediu o tamanho do disco e estudou as cores (e, consequentemente, as temperaturas) de diferentes partes do disco. Estas observações mostram um nível de precisão equivalente à detectar grãos individuais de areia na superfície da lua.
Enquanto os buracos negros em si são invisíveis, as forças que desencadeiam causam alguns dos mais brilhantes fenômenos no Universo. Quasares – abreviação de objetos quase estelares – são  discos  brilhantes de matéria que  orbitam buracos negros supermassivos, aquecendo-os e emitindo uma radiação extremamente brilhante como só eles conseguem produzir.

“Um disco de acreção de um quasar tem um tamanho típico de alguns dias-luz, ou cerca de 100 bilhões quilômetros de diâmetro, mas eles ficam a bilhões de anos-luz de distância. Isso significa que seu tamanho aparente quando visto da Terra é tão pequeno que  provavelmente nunca haverá um telescópio potente o suficiente para ver sua estrutura diretamente “, explica José Muñoz, o cientista-chefe do estudo.

Até agora, o  pequeníssimo tamanho aparente dos quasares, fez com que a maioria do nosso conhecimento de sua estrutura interna tenha sido baseada em extrapolações teóricas, em vez de observações diretas.
A equipe, portanto, utilizou um método inovador para estudar o quasar: usou  estrelas em uma galáxia intermediária, como um microscópio de varredura, para investigar estruturas do disco do quasar que seriam muito pequenas para observar.Como essas estrelas se movem através da luz do quasar, os efeitos gravitacionais amplificam a luz de diferentes partes do objeto, dando informações coloridas e detalhadas sobre uma linha que atravessa o disco de acreção.

A equipe observou um grupo de quasares distantes pelo efoeto das lentes gravitacionais por meio do alinhamento casual de outras galáxias em primeiro plano, produzindo várias imagens do quasar.
Eles avistaram sutis diferenças de cor entre as imagens, e mudanças na cor ao longo do tempo em que as observações foram realizadas. Parte dessas diferenças de cor são causadas pelas propriedades de poeira nas galáxias intermediárias: a luz que vem de cada uma das imagens ampliadas pelas lentes gravitacionais tem seguido um caminho diferente através da galáxia, de modo que as várias cores guardam informações sobre o material de dentro da galáxia.  Medir a forma e o grau com que a poeira dentro das galáxias bloqueia  a luz (conhecido pelos astrônomos como a lei de extinção) a tais distâncias é em si um resultado importante no estudo.

Para um dos quasares estudados, no entanto, havia sinais claros de que estrelas na galáxia intermediária foram passando pelo caminho de luz do quasar. Assim como o efeito gravitacional acontece, devido a toda a galáxia intermediária, que pode dobrar e amplificar a luz do quasar, as estrelas dentro da galáxia também  podem  sutilmente dobrar e amplificar a luz de diferentes partes do disco de acreção que passam pelo caminho da luz do quasar.
Pelo registro da variação de cor, a equipe foi capaz de reconstruir o perfil de cor através do disco de acreção. Isto é importante porque a temperatura de um disco de acreção aumenta quanto mais próximo do buraco negro, e as cores emitidas pela matéria  se tornam  mais azuis quanto mais quente for. Isto permitiu que a equipe medisse o diâmetro do disco de matéria quente, e plotasse as diferenças de temperatura a diferentes distâncias do centro.
Eles descobriram que o disco está entre quatro e onze dias em luz (cerca de 1-300km). Embora  esta medida ainda mostre grandes incerteza, ainda é uma medida extremamente precisa para um pequeno objeto a uma distância tão grande, e o método tem um grande potencial para maior precisão no futuro.
“Este resultado é muito relevante, pois implica que temos agora a possibilidade de obtenção de dados observacionais sobre a estrutura desses sistemas, ao invés de confiar apenas na teoria “, diz Muñoz. ” As Propriedades físicas dos Quasares ‘ainda não são bem  compreendidas” . Esta nova capacidade de obter medidas de observação é, portanto, abrir uma nova janela para ajudar a entender a natureza desses objetos. “