Arquivo para abril \14\UTC 2012

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Frenético massacre de cometas em Formalhault

Colisões de cometas podem ter gerado um disco de poeira em torno da linda Formahault , alfa da constelação de Peixe Austral (Piscis Austrini).  Disso trata o artigo escrito por Nancy Atkinson para a Universe Today que traduzi e adaptei a seguir. O texto original pode ser acessado aqui

Imagem em infravermelho afastado do Herschel da estrela Fomalhaut e seu disco. Credito: ESA

Pode haver alguma atividade frenética acontecendo no disco estreito empoeirado em torno de uma estrela próxima chamada Fomalhaut. Os cientistas vêm tentando compreender a composição do disco, e novas observações por parte do Observatório Espacial Herschel revelam que o disco pode ter surgido a partir de colisões de cometas. Mas para  a quantidade de poeira e detritos vistos em torno Fomalhaut ser criada, deveria haver  colisões destruindo milhares de cometas gelados todos os dias.
“Fiquei realmente surpreso”, disse Bram Acke, que liderou uma equipe sobre as observações do Herschel. “Para mim, este é um número extremamente grande.”

Fomalhaut é uma estrela jovem, com apenas algumas centenas de milhões de anos,a  cerca de 25,1 anos-luz de distância e duas vezes mais massiva que o Sol.É a estrela mais brilhante do constelação Piscis Austrinus e uma das estrelas mais brilhantes em nosso céu, visível no céu do hemisfério sul, no hemisfério norte no outono e no início das noites de inverno .

O cinto de poeira toroidal (em forma de pneu)  de Fomalhaut  foi descoberto na década de 1980 pelo satélite IRAS. Já foi visto várias vezes pelo Telescópio Espacial Hubble, mas  as novas imagens do Herschel mostram o cinto em muito mais detalhe em comprimentos de infravermelho afastado como nunca visto antes.

Acredita-se que as propriedades estreitas e a assimetria do disco aconteçam  devido à gravidade de um possível planeta em órbita em torno da estrela, mas a existência do planeta ainda está em estudo.

Acke, da Universidade de Leuven, na Bélgica, e seus colegas de equipe analisaram as observações do Herschel e encontraram  temperaturas de poeira no cinto que estão entre -230 e -170 º C, e porque Fomalhaut é ligeiramente fora de centro e mais perto do lado sul do cinto, o lado sul é mais quente e mais brilhante do que o lado norte.

Essas observações coletaram a luz estelar dipersada  pelos  grãos de fora do cinto,  luz  essa, que se mostrou muito fraca nos comprimentos de onda visíveis do Hubble, sugerindo que as partículas de poeira são relativamente grandes. Mas isso  parece ser incompatível com a temperatura do cinto tal como medido pelo Herschel no  infravermelho afastado 

Enquanto observações com Hubble sugerem que os grãos do disco de poeira sejam relativamente grandes, os dados  do Herschel  mostram que o pó no cinto tem as propriedades térmicas de pequenas partículas sólidas, com tamanhos de apenas alguns milionésimos de metro de diâmetro. Observações  do HST sugerem grãos sólidos mais de dez vezes maiores.

Para resolver o paradoxo, Acke e colegas sugerem que os grãos de poeira devam ser grandes agregados fofos, semelhantes às partículas de poeira liberadas a partir de cometas em nosso Sistema Solar. Eles teriam tanto  as propriedades térmicas como as de dispersão corretas.

No entanto, isto conduz a um outro problema.

A luz brilhante vinda de Fomalhaut deveria soprar pequenas partículas de poeira para fora do cinto muito rapidamente, mas estes grãos parecem permanecer lá em abundância.

Então, a única maneira de explicar a contradição é o reabastecimento do cinto através de colisões contínuas entre objetos maiores em órbita em torno de Fomalhaut  que criam um pó novo.

Não é a primeira vez que a evidência de colisões cometárias têm sido vistas em torno de outro estrela. No ano passado, astrônomos usando o Telescópio Espacial Spitzer detectaram uma atividade semelhante a um tipo de “bombardeio pesado” , onde corpos gelados do sistema solar exterior estariam  possivelmente jogando mundos rochosos para mais perto da estrela.

Em Fomalhaut, no entanto, para sustentar o cinto, a taxa de colisões deve ser marcante: todo dia, o equivalente a dois cometas de 10 km de porte ou 2.000 cometas de 1 km de tamanho  devem ser completamente esmagados em pequenas partículas de poeira macias.

A fim de manter a taxa de colisão tão alta, os cientistas estimam que deve haver entre 260 mil milhões e 83 trilhões de cometas no cinto, dependendo do seu tamanho.Isso não é insondável, a equipe diz que, como nosso próprio Sistema Solar tem um número similar de cometas em sua Nuvem de Oort , que se formou a partir de objetos espalhados a partir de um disco em torno do Sol, quando era tão jovem como Fomalhaut.

“Estas imagens bonitas do Herschel tem fornecido as informações cruciais necessárias para modelar a natureza do cinto de poeira em torno de Fomalhaut”, disse Göran Pilbratt, cientista do projecto ESA Herschel.

Fonte: ESA

 

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09
abr
12

Jean Nicolini

 

Desde que comecei a me interessar por astronomia e me dedicar ao seu estudo, passei a ouvir com frequência o nome de Jean Nicolini. Muito mais do que sua atuação pioneira e inspiradora, o que me chama atenção é o carinho e a reverência com que tantos que tiveram a chance de conviver com ele falam sobre suas experiências ao lado desse grande astrônomo. Hoje seria o dia de seu aniversário.
Pioneiro no estudo do sol, Jean Nicolini foi um verdadeiro mestre para muitos que o seguiram e nele se inspiram até hoje e deixou discípulos que tem hoje importante atuação no meio astronômico nacional e que fazem questão de citá-lo como referência.
A seguir, uma breve biografia, que fica como uma homenagem pessoal a esse homem que nunca conheci pessoalmente, mas cuja obra e personalidade já me influenciam.

Este post é especialmente dedicado a Rogerio Marcon e Ednilson Oliveira.

Jean Nicolini, nasceu na cidade de São Paulo no dia 9 de abril de 1922 e faleceu no Município de Americana no dia 23 de julho de 1991 devido a um acidente automobilístico na Rodovia Luiz de Queiroz, aos 69 anos, quando se dirigia ao Observatório Municipal de Americana – OMA, para desempenhar suas funções de astrônomo. Seus pais, Noel Nicolini e Jeanne Cabrit Nicolini eram franceses, razão pela qual cultivava grande admiração por aquele País e tinha fluência no idioma francês. Foi casado com Áurea Nicolini e teve dois filhos.

Jean era um homem que perseguia seu ideal e o conquistava a todo custo. Autodidata, foi apaixonado pelas ciências humanas e exatas, tendo se interessado desde cedo por Geografia, História, Arqueologia e Mitologia mas seu grande interesse e paixão era a Astronomia.
Apesar de se dedicar à observação de Marte e Vênus com grande sucesso, sendo premiado em 1963 pela Societè Astronomique de France com o prêmio George Bidault de l’Isle , sua grande obra observacional foi a observação solar.Jean Nicolini passou 34 anos de sua vida estudando os fenômenos solares.
Durante toda a década de 60, Nicolini trabalhou em observações da Lua para o projeto Apollo. Ele fez inúmeras observações em regiões do satélite onde posteriormente os astronautas americanos iriam colocar os pés pela primeira vez na história, em julho de 1969. Juntamente com outros astrônomos, ele procurou registrar manifestações luminosas que ocorrem esporadicamente no interior das cratera lunares.

 

 

Professor Nicolini em junho de 1991 (Acervo de Rogerio Marcon)

 

Jean fundou no dia 15 de outubro de 1948, na cidade de São Paulo, o Observatório do Capricórnio – Entidade Civil Sem Fins Lucrativos”, realizando assim seu grande sonho. O nome escolhido para o observatório, foi em razão do Trópico de Capricórnio passar próximo a cidade de São Paulo.

Em 1976, muda-se para a cidade de Campinas, São Paulo com sua família, quando recebe convite do então Prefeito Lauro Péricles Gonçalves, por ocasião da criação do Observatório de Campinas, para que o Observatório do Capricórnio assine convênio de atuação técnico científico, operacionalizando as atividades, numa atuação conjunta. Assim em 15 de janeiro de 1977 inaugura-se a Estação Astronômica de Campinas. O primeiro Observatório Municipal do País está implantado e mais uma vez o sonho de Jean Nicolini é realizado. Mais tarde o Observatório passou a levar o seu nome.

Observatório Municipal de Campinas “Jean Nicolini”

Observatório Municipal de Campinas "Jean Nicolini"

Num artigo da Scientific American, em 2011, seu colega Nelson Travnik, escreveu sobre ele:

“…Nicolini participou como membro ativo da SAF e de várias outras entidades e colaborou com o Observatório de Meudon, na França, na determinação do período de rotação de Vênus. Participou do International Mars Comitee, em 1954, para elaboração do mapa meteorológico de Marte. Entre 1961 e 1991 foi “Standard Observer” pela AAVSO. Foi também observador credenciado pela Nasa-JPL e pelo Smithsonian Institution no projeto “LION” para observações durante o projeto Apollo.

Publicou dois livros: Marte, o planeta do mistério e Manual do astrônomo amador, pela editora Papirus, o segundo deles ainda hoje uma referência para os astrônomos amadores. Desempenhou inúmeros cargos em associações nacionais e internacionais.

Nicolini foi cofundador da Associação de Amadores de Astronomia de São Paulo, AAA (1949), da Sociedade Interplanetária Brasileira (SIB), em 1952, da Sociedade Brasileira de Selenografia (SBS), (1956), e da União Brasileira de Astronomia (UBA), em 1970. Entre seus maiores colaboradores destacavam-se Rubens de Azevedo, Rômulo Argentiere e Frederico Funari.Graças ao seu conhecimento e atenção que dedicava às pessoas que o procuravam, despertou inúmeras vocações. Nunca deixava de responder a uma única carta. Uma das mais profícuas motivou o físico Rogério Marcon, da Unicamp, a se dedicar à heliofísica, tornando-se um dos maiores pesquisadores brasileiros nessa área. Marcon criou mais tarde o Observatório Solar B. Lyot, dedicado à memória de Nicolini”

Na foto Jean Nicolini e Rogerio Marcon em 1984

Jean Nicolini e Rogerio Marcon em 1984Que seu idealismo, sua obra e seu espírito científico possam continuar inspirando mais e mais novos astrônomos profissionais e amadores, especialmente aqueles que, como ele, amam o Sol.